O texto do Mario Sergio Conti, no NoMínimo, fala de Jean-Paul Sartre a partir de uma exposição de comemoração de seu centenário de nascimento, realizada em Paris. Algumas coisas interessantes são trazidas, inclusive o que um ex-secretário do intelectual escreveu sobre esse último, num livro agora reeditado. Entre as várias coisas ditas, temos o seguinte: que Sartre gostava de escrever pelas manhãs, fazendo mínimas correções após. Isso evidencia que as facilidades que hoje experimentamos ao escrever um texto, como deletar parte de uma frase para substituí-la, ou mesmo modificar toda a ordem e estrutura do mesmo, eram coisas mais difíceis de realizar antes da invenção dos computadores... O pensamento saía, de certa maneira, já bem "redondinho", sem grandes necessidades de mudança. Creio que não só porque Sartre já tinha necessidade de fazer assim, para economizar tempo e energias em revisões, mas porque as condições que temos (e que Sartre tinha) nos atravessam, são carregadas conosco, mesmo quando estamos escrevendo...
Dentre as coisas que li nesse texto gostei, especialmente, do seguinte:
Saí satisfeito da Biblioteca e andei até o ponto de ônibus, para pegar o 89. Vim pensando que gostaria de ler um livro que analisasse as mudanças na escrita, nos jornais e nos livros, com o incremento tecnológico. Uma coisa é escrever à mão. Outra, em máquina de escrever. Outra, num computador. Talvez tenha ocorrido um distanciamento progressivo entre a atividade física e a mental no ato de escrever. A facilidade em reescrever, que aumentou, deve ter alguma influência no estilo dos que se dedicam ao ofício. Sartre escreveria um ensaio sobre o tema?
E acho que eu também gostaria de ler um livro que explorasse essas mudanças na escrita [talvez o livro "Os desafios da escrita", de Roger Chartier, fale um pouco sobre isso - ao menos foi o que eu achei, por acaso].
Outra coisa interessante nesse texto é ver o tempo que o Mario Sergio Conti dispensou consigo mesmo, nessa visita à exposição, e assim podemos pensar, o quão houveram transformações nele mesmo a partir dessa experiência. Sim, porque os nossos dias são, muitas vezes, extenuantes. Precisamos tentar "dar conta" de um monte de coisas através de prazos, escritas, leituras, cuidados com a casa, atenções à família, amigos, namorados... e, no meio desse mar de coisas a serem realizadas, qual atenção estamos dando à gente mesmo? O que estamos fazendo para o nosso "engrandecimento" enquanto ser-humano, pessoa, gente, reles mortais...? Essa é a pergunta que fica, e a pergunta que não podemos deixar calar todo o dia ao acordarmos...
04 julho 2005
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Um comentário:
Isso, o importante é nos tornarmos diferentes do que somos.
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