29 setembro 2005

E assim começo a introdução da minha proposta (ao menos temporariamente)...

Devido a fragilidade entre as distinções sobre as esferas do público e do privado nos tempos atuais, somos cada vez mais incitados a falar de nós mesmos nos mais variados espaços. Essa exposição -extremamente mais visibilizada com o advento das novas tecnologias de informação, disponíveis aos que operam com os seus códigos- das coisas que vivenciamos, pensamos e sentimos, vem aumentando com a popular passagem das escritas de si nos diários de papel para as escritas de si nos blogs, como escritas tornadas públicas; com a constante aparição de anônimos e artistas que abrem suas histórias de vida na televisão, revistas, sites...; com a construção de um perfil pessoal tornado público no Orkut , assim como as constantes conversas e debates que acontecem nesse espaço demonstram tanto o apelo para que ocupemos esses espaços, quanto as possibilidades dos singulares modos de cada um, nesses lugares específicos, buscar narrar a si mesmo (e aos 'outros'). Há, portanto, um apelo cada vez maior para nos confessarmos, para buscarmos uma 'verdade' sobre nós mesmos. E talvez seja esse 'apelo' que esteja retumbando ao meu ouvido, agora, ao dar prosseguimento a essa escrita. Uma invocação para que eu diga coisas sobre a minha vida, para que tente criar um elo entre os acontecimentos que vem me constituindo e os meus interesses de pesquisa; interesses que vem me fazendo vibrar, que vem me mobilizando a seguir em frente...

O ato de escrever mobiliza muitas coisas em nós. Eu estou vivenciando esse processo, e espero falar mais sobre isso nos próximos posts.

25 setembro 2005

Veja. Mas saiba por que ângulo você está aprendendo a ver!

Revista Veja: Laboratório de invenções da elite. Na Novae uma interessante análise, a partir da esquerda, da revista Veja. Analisando os modos como essa revista participa da construção das identidades da classe média brasileira, pautando os temas e tendências do dia a partir de recursos que visam atender a uma ideologia neoliberal. Abaixo, alguns excertos:

"Veja faz um jornalismo de trás para a frente", explica Cláudio Julio Tognolli, repórter do semanário na década de 1980 e hoje professor da USP. Segundo ele, se estabelece uma tese e a partir dela se parte para a rua, para a apuração. Ouvir lados diferentes da história e pesquisar sobre o tema são práticas que não alteram a "pensata", jargão para definir a tese que a matéria deve comprovar. Dentro da redação, o melhor repórter é o que traz personagens e fontes para comprovar a tese. "Assim, Veja ensina à classe média bebedora de uísque o que pensar", alfineta.

Publicações tradicionais do mundo todo têm sua posição claramente conhecida pelo público, sem roupagem de imparcialidade. Os questionamentos éticos aparecem quando as relações por trás desses interesses não são transparentes ao público leitor. Um dos motivos dessa falta de transparência é o surgimento dos grandes conglomerados de comunicação. Esse fenômeno adquire contornos mais dramáticos no Brasil, que permite a propriedade cruzada dos meios de comunicação (uma mesma empresa detém meios impressos e televisivos, por exemplo).

O presidente da Radiobrás e ex-diretor de publicações da Abril, Eugênio Bucci, alerta que os grupos transnacionais de entretenimento compram TVs e jornais e os restringem a um mero departamento. "A pergunta que se colocava antes era se o jornalismo é capaz de ser independente do anunciante. Hoje se questiona se ele é capaz de ser independente do grupo que o incorporou", avalia.

07 setembro 2005

Transformações em mim

No final de um dos seminários que fiz, escrevi o seguinte:
Adoro andar pelas ruas de Porto Alegre com olhos de turista, prestando atenção nos seus prédios, árvores, na movimentação humana nas suas ruas, principalmente na chamada rua da praia, a Andradas. Assim, lá estava eu, procurando ver a cidade de um modo singular ao mesmo tempo em que comecei a pensar sobre a multiplicidade de existências, com certeza tão diferentes, que estavam passando ali naquela rua. Continuei, então, caminhando e pensando, mas pensando sobre como estou levando os meus dias, o que tenho feito por mim, sobre as relações que tenho mantido comigo mesma... Incitada a pensar em mim, enquanto sujeito, no seminário sobre Michel Foucault e a Hermenêutica do sujeito (e não só a pensar num sujeito descolado da minha vida), passei a refletir, ao longo desse semestre, sobre como estou vivendo os meus dias, o que estou tomando por grande, o que estou escolhendo como prioridade...
Nesse momento resolvi ir à exposição Mirabolante Miró, como uma forma de dar um presente para mim, assim como para me deixar impregnar pela possibilidade artista de tentar ser outra de mim mesmo, outra porque em constante reinvenção, porque aberta à criação de novos sentidos, novos rumos e direções a tomar. Eu queria ter novas experiências produzidas, queria me abrir "para o desconhecido, para o que não se pode antecipar nem 'pré-ver' nem 'pré-dizer'" (LARROSA BONDÍA, 2002, p.28). Queria, em suma, ser tocada pelas coisas que me acontecem, ser arrebatada pelos movimentos da vida, tocada e modificada pelo que vejo, toco, vivencio... queria a produção de um viver mais belo. Nossas vivências podem ser vistas, portanto, como acontecimentos que podem (ou não) produzir experiências e, por isto, podem (ou não) propiciar a criação de novas rotas de viagem em que não nos será possível assegurar, fortemente, quem somos ou o que seremos logo adiante.
Posso dizer, seguramente, que hoje sou outra, pois vejo que fui atravessada pelas coisas que me passaram, produzindo transformações em mim; e é muito bom vivenciar isso, nos sentirmos nômades não só em torno de questões territoriais, mas nômades porque nossas "paisagens subjetivas" deslocam-se continuamente, nos levando para um lado e para outro... Portanto, realmente, muitas coisas nos passam, mas quais nos fazem voltar para a gente mesmo e nos ver de uma maneira diferente da qual estávamos sendo anteriormente? É, muitas coisas nos atravessam, mas quais nos fazem remoer sentimentos, para arrancá-los e qualificá-los, num processo em que nos diferenciamos, não apenas do outro que está ao nosso lado no banco de ônibus, mas principalmente, diferenciação das maneiras pelas quais estávamos levando as nossas vidas, da maneira pela qual estávamos sendo sujeitos nesses tempos...?
Essas são indagações que levarei comigo, e que me fazem refletir sobre a minha vida acadêmica nesse primeiro semestre de mestrado. Cursei cinco seminários no PPGEdu, mas quantas vezes fui incitada a pensar no modo-pesquisadora que estou sendo? Quantas oportunidades tive de me colocar em suspensão entre um frenético ato de ler e dar conta do que era minimamente necessário? Saio feliz desse seminário, pois se tive dificuldades de expor o que sentia, o que queria, posso atestar que nas várias vezes que precisei sair de mim mesma para voltar a mim no final, voltei modificada, porque as coisas que me atravessaram me agitaram, transformaram, mexeram comigo... Saí de mim e voltei para mim, mas hoje já não me reconheço mais, pois sou outra.
Trouxe, anteriormente, a visita que fiz á exposição Mirabolante Miró para mostrar o quanto podemos ter experiências que modifiquem a nossa própria forma de ser sujeito. Lá, fiquei encantada com as cores, cores que expressam, que são belas, poéticas... Outra coisa que mexeu comigo foi, também, assistir o vídeo sobre os momentos de criação do Miró, pois parecia que "algo" se apoderava dele, e esse algo, não era nada nem ninguém além dele mesmo, pois ele parecia ser arrebatado pelo que estava produzindo... Em cada pincelada havia sentimento, criação, angústia, possibilidades, enfim, de ser outro-de-si-mesmo... Possibilidades que pude vivenciar nesse seminário, pois não estávamos falando de sujeitos estranhos para nós mas partindo também da nossa existência, enquanto sujeitos que estamos sempre em produção. Sim, vejo que coisas aconteceram, invadiram a nossa alma e nos transformaram em outros de nós mesmos... Parece, felizmente, que podemos: ser autores de nós mesmos, nos reinscrever em outras lógicas, nos esgueirar e pegar outros cometas, partir para outras paragens, e é urgente, necessário, que isso seja feito...
REFERÊNCIAS
FOUCAULT, Michel. A hermenêutica do sujeito. Trad.Márcio Alves da Fonseca, Salma Tannus Muchail. São Paulo: Martins Fontes, 2004. 680p.
LARROSA BONDÍA, Jorge. Notas sobre a experiência e o saber de experiência. Revista Brasileira de Educação, n.19, p.20-28, jan/fev/mar/abr. 2002.