07 setembro 2005

Transformações em mim

No final de um dos seminários que fiz, escrevi o seguinte:
Adoro andar pelas ruas de Porto Alegre com olhos de turista, prestando atenção nos seus prédios, árvores, na movimentação humana nas suas ruas, principalmente na chamada rua da praia, a Andradas. Assim, lá estava eu, procurando ver a cidade de um modo singular ao mesmo tempo em que comecei a pensar sobre a multiplicidade de existências, com certeza tão diferentes, que estavam passando ali naquela rua. Continuei, então, caminhando e pensando, mas pensando sobre como estou levando os meus dias, o que tenho feito por mim, sobre as relações que tenho mantido comigo mesma... Incitada a pensar em mim, enquanto sujeito, no seminário sobre Michel Foucault e a Hermenêutica do sujeito (e não só a pensar num sujeito descolado da minha vida), passei a refletir, ao longo desse semestre, sobre como estou vivendo os meus dias, o que estou tomando por grande, o que estou escolhendo como prioridade...
Nesse momento resolvi ir à exposição Mirabolante Miró, como uma forma de dar um presente para mim, assim como para me deixar impregnar pela possibilidade artista de tentar ser outra de mim mesmo, outra porque em constante reinvenção, porque aberta à criação de novos sentidos, novos rumos e direções a tomar. Eu queria ter novas experiências produzidas, queria me abrir "para o desconhecido, para o que não se pode antecipar nem 'pré-ver' nem 'pré-dizer'" (LARROSA BONDÍA, 2002, p.28). Queria, em suma, ser tocada pelas coisas que me acontecem, ser arrebatada pelos movimentos da vida, tocada e modificada pelo que vejo, toco, vivencio... queria a produção de um viver mais belo. Nossas vivências podem ser vistas, portanto, como acontecimentos que podem (ou não) produzir experiências e, por isto, podem (ou não) propiciar a criação de novas rotas de viagem em que não nos será possível assegurar, fortemente, quem somos ou o que seremos logo adiante.
Posso dizer, seguramente, que hoje sou outra, pois vejo que fui atravessada pelas coisas que me passaram, produzindo transformações em mim; e é muito bom vivenciar isso, nos sentirmos nômades não só em torno de questões territoriais, mas nômades porque nossas "paisagens subjetivas" deslocam-se continuamente, nos levando para um lado e para outro... Portanto, realmente, muitas coisas nos passam, mas quais nos fazem voltar para a gente mesmo e nos ver de uma maneira diferente da qual estávamos sendo anteriormente? É, muitas coisas nos atravessam, mas quais nos fazem remoer sentimentos, para arrancá-los e qualificá-los, num processo em que nos diferenciamos, não apenas do outro que está ao nosso lado no banco de ônibus, mas principalmente, diferenciação das maneiras pelas quais estávamos levando as nossas vidas, da maneira pela qual estávamos sendo sujeitos nesses tempos...?
Essas são indagações que levarei comigo, e que me fazem refletir sobre a minha vida acadêmica nesse primeiro semestre de mestrado. Cursei cinco seminários no PPGEdu, mas quantas vezes fui incitada a pensar no modo-pesquisadora que estou sendo? Quantas oportunidades tive de me colocar em suspensão entre um frenético ato de ler e dar conta do que era minimamente necessário? Saio feliz desse seminário, pois se tive dificuldades de expor o que sentia, o que queria, posso atestar que nas várias vezes que precisei sair de mim mesma para voltar a mim no final, voltei modificada, porque as coisas que me atravessaram me agitaram, transformaram, mexeram comigo... Saí de mim e voltei para mim, mas hoje já não me reconheço mais, pois sou outra.
Trouxe, anteriormente, a visita que fiz á exposição Mirabolante Miró para mostrar o quanto podemos ter experiências que modifiquem a nossa própria forma de ser sujeito. Lá, fiquei encantada com as cores, cores que expressam, que são belas, poéticas... Outra coisa que mexeu comigo foi, também, assistir o vídeo sobre os momentos de criação do Miró, pois parecia que "algo" se apoderava dele, e esse algo, não era nada nem ninguém além dele mesmo, pois ele parecia ser arrebatado pelo que estava produzindo... Em cada pincelada havia sentimento, criação, angústia, possibilidades, enfim, de ser outro-de-si-mesmo... Possibilidades que pude vivenciar nesse seminário, pois não estávamos falando de sujeitos estranhos para nós mas partindo também da nossa existência, enquanto sujeitos que estamos sempre em produção. Sim, vejo que coisas aconteceram, invadiram a nossa alma e nos transformaram em outros de nós mesmos... Parece, felizmente, que podemos: ser autores de nós mesmos, nos reinscrever em outras lógicas, nos esgueirar e pegar outros cometas, partir para outras paragens, e é urgente, necessário, que isso seja feito...
REFERÊNCIAS
FOUCAULT, Michel. A hermenêutica do sujeito. Trad.Márcio Alves da Fonseca, Salma Tannus Muchail. São Paulo: Martins Fontes, 2004. 680p.
LARROSA BONDÍA, Jorge. Notas sobre a experiência e o saber de experiência. Revista Brasileira de Educação, n.19, p.20-28, jan/fev/mar/abr. 2002.

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