
Talvez nunca tenhamos sido tão incitados a falar de nós quanto atualmente. Principalmente desde a popular passagem das escritas de si nos diários de papel para as escritas de si nos blogs, escritas tornadas públicas; a constante aparição de anônimos e artistas que abrem suas histórias de vida na TV, revistas, sites...; as descrições de si e as constantes conversas e debates no orkut, por exemplo, onde vemos, assim como nos blogs, modos dos sujeitos mostrarem os singulares modos de cada um buscar narrar a si mesmo... Há, parece, um apelo cada vez maior para nos confessarmos, para buscarmos uma "verdade" sobre nós mesmos.
Frente a essa incitação na esfera social ao falar, e falar de modos e maneiras específicas, falar de si para si e para o "outro", podemos pensar: e como isso acontece no espaço escola? Bem, a primeira coisa a dizer, para me prevenir um pouco, talvez, seja que as experiências na escola ocorrem de muitas e diferentes maneiras, e que por isso não bastam generalizações. Entretanto, a grosso modo, talvez possamos dizer que nós, professores, ainda esperamos aqueles sujeitos-alunos calmos, tranqüilos, pacientes, que falam na hora certa e desejada... Mas como esperar isso nestes tempos em que, por exemplo, as empresas querem sujeitos articulados, que se posicionem, defendam idéias, em suma, apelos para a fala e opiniões aflorarem (esse é um discurso corrente...). Sem dúvida, creio que há também distinções entre o termo falar e se expressar, pois o que parece ocorrer mais na escola é a existência de espaços de fala, mas não de expressão, expressão de si mesmo, das suas coisas, do que agita o seu pensamento, porque o "falar" na escola está muito associado ao falar o que é esperado, desejado, válido...
Se esperamos o silêncio na escola (e não quero dizer que o silêncio não seja importante, ele é uma produtiva técnica de si...) , a calmaria, o quanto estamos sendo paradoxais, não? Lembro de uma experiência que vivenciei em uma sala de aula de primeira série. Nas observações que estava fazendo fui notando o quanto a professora não deixava os seus alunos se expressarem. Ela dava folhinhas para preencherem, ou passava exercícios de cartilhas para fazerem... mas também "gastava" muito do seu tempo chamando a atenção dos alunos para não conversarem, não correrem, não brigarem, enfim, chamando a atenção para aspectos comportamentais - quase todos os dias em que lá estive, por exemplo, a vice-diretora era chamada para auxiliar a professora, ela precisava ameaçar chamar o conselho tutelar para os alunos se acalmarem um pouco). Num dos dias em que lá estava a professora estava lendo um livrinho sobre os deveres (era um aspecto bem comportamental mesmo) das crianças, e as crianças bem desisnteressadas, distraídas, conversando muito (elas querem trabalhar com as coisas da sua cultura, essa é uma das questões)... No meio da história a professora foi chamada para ir conversar com uma mãe e pediu para eu continuar lendo a história para eles. Bem, g-e-l-e-i, porque estava vendo que aquilo ali não estava tendo efeito algum. E, assim mesmo, comecei a ler a história até que tentei fazer uma dinâmica um pouquinho diferente, queria que eles lessem, em duplas, trios, comigo, para que eles tivessem oportunidade de falar algo significativo, e eles adoraram... não posso dizer que ficaram quietinhos, calminhos, mas todos queriam participar, e queriam ouvir os colegas... Creio que isso pode não ser a expressão de si mesmo, mas no contexto referido, em que até o dar uma opinião não era possível (devido mesmo à dinãmica de trabalho...), dar a palavra, delegar o falar a outrem foi super produtivo.
A imagem que selecionei mostra uma boca fechada, mas se notarem, os olhos não estão indo em direção à câmera fotográfica, pois os olhos fogem. E, devido a isso, podem ser vistos como um meio de "fuga", um meio de expressar a subversão ao que estão querendo fazer com a gente...
Fica a inquietação: a escola nos deixa expôr o que sentimos, pensamos, amamos, queremos...? Quais os espaços de expressão que estamos tendo? Como pensar em transformações que aproximem mais a escola de seus sujeitos?
*Não posso deixar de agradecer a Suzana, que postou uma mensagem detalhada no seu blog sobre como inserir imagens em blogs usando o Flick. Só assim consegui colocar essa imagem! Obrigada!