Não sei por que eu ainda me surpreendo, mas deve ter relação com algo como esperança. Esperança de que a solidariedade humana tenha mais ascensão em meio a tanto individualismo reinante. No site da
Zero Hora havia uma enquete (com três opções) com a seguinte questão:
Na quinta-feira, a ONU estendeu em mais oito meses a missão no Haiti. Até quando o Brasil deve manter tropas nesse país do Caribe?
1) Até quando for necessário. O Brasil tem obrigação de ajudar as nações amigas mais pobres.
2) Está na hora de voltar.
3) Nem deveríamos ter ido. O Brasil tem problemas mais importantes para resolver.
Vendo os resultados, a primeira opção tem 26,95% de votos até o momento, a segunda 7,03% e a terceira 66,02%.Pensamentos como esse mostram o quanto a solidariedade está em baixa, por um lado. De outro, o quanto a resistência a esse modo de pensar também é recorrente, pois com olhar esperançoso dá para ver que a primeira opção não está
tãaaaaaaaaao mal. O importante de salientar é o tipo de imaginário social que se "apossa" de nós, tornando possível que modos de pensar como esses se proliferem.
Um pensamento ético entra nisso, pois na maioria de votos para a terceira opção está embutido que problemas individuais, em suma, seriam de responsabilidade individual também. Ou seja:
por que contribuir com o Haiti? Eles é que se arrumem, não temos nada a ver com isso! Ou, ainda:
já temos problemas demais aqui para ajudar outros países, isso não é certo... Com esse tipo de pensamento ainda esperamos que os países mais abastados estendam as suas riquezas além das suas fronteiras...
Creio que enquanto seres humanos a responsabilidade de uns por outros não é algo que deve ser limitado a pares amorosos, a núcleos familiares (algo tão forte na moral burguesa), ou qualquer outro tipo de fronteiras que servem para delimitar os "de dentro" e os "de fora". Bom seria se todos ajudassem todos, pois assim, certamente, teríamos um mundo melhor. Bem, uma boa dose de
utopia acho que ajuda a suportar um pouco mais esse mundo, que se transveste de faces às vezes tão cruéis. Isso porque mais do que uma simples resposta na enquete, a resposta mais votada mostra, também, a forma de se locomover no cotidiano de muitas pessoas. E acredito que muito do tipo de violência que hoje vivenciamos advém, igualmente, desse tipo de mentalidade.
Você é de "fora" da minha comunidade, do meu círculo de "iguais", então você não merece ajuda, respeito... se quiser procure entre os seus...O caso de Ali, abaixo, creio que demonstra bem isso. Indiferença e violência tanto por parte dos espancadores quanto dos policiais, que ficaram totalmente OMISSOS. Excerto do blog
whodouthinkur:

ALI tem 39 anos de idade, é filósofo, um estudioso da raça humana, professor de uma faculdade em São Paulo e, também, escritor. ALI é um cara tranqüilo, sereno, que ama a vida, ama seus amigos. ALI é uma pessoa muito pacífica, ao ponto de ser incapaz de fazer mal à uma mosca. No entanto, ALI tem uma particularidade, que o torna quase singular em comparação à maioria da população: ele é gay. Mas isso não faz dele menos ALI! Ele continua sendo o mesmo cara gente fina de sempre! A única diferença é que ele prefere, entre quatro paredes, estar com meninos ao invés de meninas. Algum mal nisso? Creio que não, já que cada um faz com sua vida particular o que bem entender desde que não prejudique a outrem. Isso é o que podemos chamar de RESPEITO pela diversidade. Todavia, em pleno século XXI, ainda tem gente que acha que os gays não são dignos de respeito...
Madrugada de sábado, 11 de fevereiro de 2007, ALI estava voltando da rua para sua casa com alguns amigos, passando pela Rua da Consolação, nos Jardins - inquestionávelmente, o reduto gay da cidade de São Paulo - à 100m da Av. Paulista, quase na esquina da Alameda Santos, quando foi cruelmente atacado por um bando de mais ou menos dez caras, armados de cacos de garrafas em suas mãos. Os covardes em questão trajavam preto, como cavaleiros da morte, e traziam consigo todo o ódio do mundo. Por quê? Talvez porque não tenham a coragem que ALI tem de encarar a vida, talvez porque não tenham a inteligência e sensibilidade de ALI, ou talvez ainda, porque para eles deva ser divertido espancar um ser vivo até quase matá-lo. Apenas diversão para terminar bem a noite. Pobres desalmados! Pobre ALI...
Vendo seu amigo sendo atacado, mais que rapidamente, seus companheiros se dirigiram a poucos passos de onde a agressão acontecia, onde havia uma guarita da Polícia Militar. No entanto, qual foi a supresa dos amigos de ALI ao descobrir que, sendo a polícia solicitada para ajudar, estes se omitiram perante à situação apresentada com a justificativa de que "aquela região não era sua jurisdição"! Que eficiência! Que humanidade!! Que presteza!!! Então, para a Polícia Militar ajudar ao cidadão em perigo, é necessário checar se este está na jurisdição na qual os mesmos policiais se encontram? O que faziam estes policiais ali, então, fora de sua jurisdição? Estavam "matando" trabalho? Ora, se cada policial tem sua jurisdição, onde estariam os policiais da jurisdição correspondente ao lugar onde o crime acontecia?? Não poderiam estes policiais que estão fora de sua jurisdição, comunicar-se via rádio com outros policiais que pudessem prestar socorro ao rapaz sendo covardemente espancado na calçada na frente de seus narizes? Se o dever dessas autoridades é defender o cidadão indefeso, como descrever o paradoxo desta situação?? Faltam-me palavras...
Parece-me que não faltam fatos concretos a mostrar o quanto essas questões atravessam, de todos os lados, o nosso cotidiano. Atravessam, sim, assim como ações solidárias que, infelizmente, não adentram muito nas mídias, pois na moral do espetáculo elas não vendem tanto... Tomara ainda as encontre para postar aqui também!