Há tempos me indago sobre o porquê de escrever, sobre o que me motiva a escrever (ato que advém de um processo de leituras, dúvidas, reflexões, algumas certezas, ainda que provisórias...). A escrita mais imprescindível, me parece, nasce de uma inquietação, de algo que tem a ver com agitação, movimentação, apreensão, preocupação, perturbação. Tem a ver com estranhamento. Processo de estranhamento de nós mesmos, pois escrever é, de certo modo, inscrever-se. Assim, estamos naquilo que escrevemos, do mesmo modo que aquilo que escrevemos está em nós.
Dissertar a respeito é fácil, entretanto, na ação é que ocorrem as complicações. Ora, e por quê? Porque de fato muitas coisas me inquietam (mais precisamente, nos inquietam!!). E, talvez, aí esteja o "problema" quando temos prazos acadêmicos (e nos submetemos a eles), quando a academia insiste em querer se apoderar de nossa imaginação da forma mais cruel possível, nos podando com suas regras, normas, reprodução do status quo, com seus prazos que tendem a enjaular todos a um mesmo ritmo que, sabemos, é variável.
Com um mundo tão polissêmico, impossível fechar-se em si mesmo e centrar-se apenas no "tema" da pesquisa. Eu, ao menos, por mais que tente, não consigo! Ah, e eu queria muito ser mais centrada nisso (quem sabe um tapa-olho não ajuda?)!! Desde que comecei o mestrado vários arquivos já foram abertos com textos que eu gostaria muito de desenvolver. Começo, leio, penso... mas as obrigações acadêmicas me fazem voltar ao trabalho que, solitariamente, eu desenvolvo. Quando eu ainda era bolsista de iniciação científica eu sonhava em entrar no mestrado para, enfim, ter a liberdade de pesquisar o que realmente me inquietasse. E, como uma das maiores lições do mestrado, aprendo tanto que as inquietações vão sendo modificadas quanto que a minha pretensão de liberdade é ilusão, pois somos regidos por normas que não somos nós que fazemos, embora nós ajudemos elas a se imporem a nós. E para sobreviver nesse mundo talvez isso seja necessário. Ai, que tristeza esse tom tão desolador e "obediente"...
Entretanto, como forma de resistência a isso que, agora, não sei nomear, mas que eu sinto bem presentificado em mim, encontrei no Patifaria (cujo post e pronto foi inspiração para esse post), uma frase muito significativa da autora do blog, a Marcia Benetti Machado: "para escrever, é preciso ter coragem de viver a imaginação". Achei belo, porque preciso reavivar isso em mim. Até minha proposta acho que conseguir lutar para deixar isso latente. A minha dificuldade atual está mostrando que a minha imaginação está sendo bloqueada por motivos outros (tais como: medo? Insegurança? Autocrítica?...).
Creio que isso se deve, ainda, a algo que ouvi muitas vezes nesses quase dois anos de mestrado, que era sobre para quem se escreve uma dissertação. Surpreendentemente, ouvi reiteradas vezes que se escreve para a banca examinadora. Eu nunca concordei com isso, pois acho que pensar assim limita muito o processo de criação, tão necessário a um trabalho que mostre o quanto de suor, lágrimas e também felicidade estiveram misturados no longo e trabalhoso processo de escrita. Eu sempre escrevi para mim e para o mundo. Para mim, primeiramente (não é egocentrismo não!!!), porque não consigo escrever algo que não seja inquietante, tanto que minha dissertação trata de como está se dando, atualmente, as produções de si e dos "outros" numa cultura tão marcada por discursos sobre o corpo. Esse tema começou a ser delineado quando vi pela primeira vez comunidades do orkut em que o foco das discussões gravitavam em torno do "odiar" pessoas "gordas". O tom racista de apartação e desprezo me mobilizou a procurar compreender como escritas como aquelas eram tornadas possíveis em nossa cultura, levando em conta a fecundidade da linguagem que produz e não apenas - e somente - conta algo.
Para o mundo porque considero esse tema, por exemplo, como de extrema urgência de ser analisado, para que alguma contribuição a tal problemática possa ser dada. Obviamente, sem a pretensão de causar grandes mudanças que, sabemos, não depende de um sujeito em particular, mas é algo que, somando-se a outras iniciativas pode ser algo a ser delineado, dando forma a uma ética, a outros modos de vida, que não apenas submetidas às ordens do discurso que, nos aprisionando a normas corporais, nos fazem julgar a nós e aos "outros".
Enfim, a imaginação não é ativada quando se escreve pensando em agradar uma banca, porque assim nos submetemos a outros e acabamos sendo muito egoístas também, pois essa submissão à banca mostra o nosso conformismo a um tipo de individualismo que demonstra a nossa subserviência para agradar e obter uma "nota", um "conceito" melhor. (O mais importante talvez seja deslocar perguntas sobre para quem se escreve, para pensarmos em para que escrevemos... pois escrever é processo de transformação! Ao menos seria bom que fosse...).
Entretanto, creio que isso fica mais fácil de ser efetivado quando estamos na escrita da proposta, pois estou vendo agora que por ter que "acatar" muitas das sugestões da banca examinadora ? que, diga-se de passagem, a minha foi sensacional!!! ? isso gera algum tipo de apreensão que tira um pouco a potência da escrita, pois isso se refere a um tipo de caminho trilhado de antemão para nós, impossibilitando que a criação se dê do modo que poderia ocorrer. Para mim isso está sendo um fator de limitação.
E fica uma bela lição da Marcia: "quando você quiser escrever, apenas escreva. reescreva. e pronto. não tem que ter por quê". Juro que vou lembrar disso na frente do word, pois assim talvez os tantos por quês motivadores desse post não fiquem me assombrando na hora da escrita, limitando a minha imaginação. Para isso, também vale deixar registrado o belo poema do Paulo Leminski (publicado no Patifaria):
RAZÃO DE SER
Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
e as estrelas lá no céu
lembram letras no papel,
quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?
PS.: Há também O escrever.
19 fevereiro 2007
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