12 abril 2006

I. Difícil é dizer. Difícil é escrever.

MEU DEUS, como é difícil escrever. Sinto falta do tempo em que escrevia descompromissada, sem medo de desapontamentos, sem medo da página em branco que me olha indecorosa...

Na parte dedicada à prática da escrita, podemos ver técnicas utilizadas para os sujeitos poderem incorporar os discursos verdadeiros dos seus mestres. Nesse sentido, temos as hypomnémata, por exemplo, que consistia em anotações de lembranças, de leituras realizadas, assim como as próprias correspondências em que, dirigindo-se a um outro sujeito, dava-se notícias de si mesmo e ficava-se (atualmente também, pois essas práticas ainda persistem!) sabendo o que estava se passando com o outro. Movimento, portanto, de idas e vindas, buscando "a constituição para si de um equipamento de proposições verdadeiras, que seja efetivamente seu" (FOUCAULT, 2004, p.431).
Tendo trazido essas pequenas lembranças, posso dizer o quanto a leitura d?A hermenêutica do sujeito, especialmente a parte sobre a escrita de si, foi importante para que eu pudesse pensar no modo pelo qual eu estava incorporando esse discurso verdadeiro do Foucault. Dito isto, preciso dizer que não estou usando de ironia, de modo algum, mas querendo chamar a atenção do quanto certas técnicas de apreensão do discurso verdadeiro podem ser produtivas, já que seus efeitos podem ser sensivelmente vistos. Técnicas de apreensão do dito, da sua meditação, que engloba tanto a escrita quanto a leitura. Digo, retornando às linhas acima, em causa própria, pois desde as leituras que eu havia feito desse texto até a sua posterior releitura, pude ver a importância de escrever a si mesmo nas reflexões sobre o lido, como propiciadores de experimentarmos a nós mesmos no tempo do nosso pensamento. Textos que não são anotações, mas que são a articulação do que lemos, ouvimos, pensamos, com o que de experiência é produzida em nós. Como é sabido, não é sem suor, sacrifício, tensão, e até medo, que eu me disponho a escrever. Mas sinto que - após tantos bloqueios e folhas rasgadas, picotadas por não dizerem o que eu achava que deveria ser dito - valeu a pena insistir para poder dizer...
No que se refere à escrita que poderíamos chamar, por assim dizer, de acadêmica, creio que muitas coisas podem ser pensadas no momento em que estamos redigindo uma proposta de dissertação, como é o meu caso. Uma das questões é o quanto nos dispomos a entrar no(s) texto(s), a fazê-lo(s) verter aquilo que tanto nos desassossega, aquilo que tanto nos motiva e nos inquieta frente ao objeto de estudo que pode, talvez, ser a inquietação de nós mesmos no ato de nosso próprio pensamento. O quanto esse papel, tão particular da escrita (mas também da escuta, da fala), de possibilitar a nossa constituição através dela está sendo vivenciada na academia, na medida em que temos prazos, expectativas, angústias e, também, cobranças que já fazem as escritas serem esperadas de determinados modos, dentro de certas embalagens, como se fossem produtos a serem verificados segundo critérios pré-estabelecidos de qualidade e embalados para a venda. Algo assim, tão frio e maquínico.
Digo isso, ainda, para que escrevendo, eu possa pensar no modo como estou, cotidianamente, sendo pesquisadora. Para que, ao escrever, eu possa, cada vez mais, ser tocada pelas leituras, aulas, conversas, relações estabelecidas no ato das escritas... É como se isso precisasse ser dito para ser, ao mesmo tempo, buscado, perseguido por todos nós...

Referência

FOUCAULT, Michel. A hermenêutica do sujeito. Trad. Márcio Alves da Fonseca, Salma Tannus Muchail. São Paulo: Martins Fontes, 2004. 680p.

08 abril 2006

O escrever

Por que eu me nego tanto?
A sensação que tenho durante o processo de escritura de minha dissertação é que tudo está ruim, está mal feito, não está como poderia ser... Ou seja, mesmo sabendo que há milhares modos de escrever o que estou escrevendo, e que cada pessoa escreve de um lugar particular - mas conectado a outros 'lugares' - a sensação é a de que eu estou aqui, escrevendo, sem estar em lugar algum.
Numa palestra proferida a um tempinho atrás pelo Jorge do Ó (de Portugal), sobre o processo de escritura e pesquisa, contaram-me que ele falou que muitos de nós ficamos desestimulados porque queremos construir uma catedral e acabamos construindo uma capela [acho que era isso]. Talvez seja isso, pois sempre pensamos mais, queremos mais, e podemos mais, sim, mas esse processo de negação no meu próprio ato de escrita impossibilita, a cada dia, as pequenas mudanças que poderiam transformar a minha capelinha em, talvez, uma catedral.

Sobre a criação dos 'outros' e modos de convivência no contemporâneo

O contemporâneo cuidado com o 'eu' - identificado como sendo especialmente o corpo - está relacionado a questões de ordens variadas e relacionadas, como os embates culturais sobre as significações, a crescente responsabilização dos indivíduos sobre si mesmos, ou mesmo a colonização do espaço público por questões privadas, dentre outros. São aspectos que vão produzindo individualidades apartadas do espaço público enquanto espaço para o convívio, a criação e a experimentação de novas formas de ser consigo e com os outros.
Visualizamos, em suma, ensinamentos que permeiam a arena social, compondo existências e produzindo efeitos em larga escala. Um exemplo disto pode ser demonstrado na reportagem "A intimidação virtual assusta" (ZH, 2005), em que um menino de doze anos foi alvo de chacota e expressões de ódio numa comunidade do Orkut que alguns dos seus colegas criaram, com o sugestivo título de "Quem quer quebrar o Rodrigo?". Pelo fato do menino ser identificado como gordo e ter um mau desempenho no futebol era vítima de ofensas na escola que ultrapassaram esse ambiente, indo para o virtual. Como demonstra a reportagem, os educadores ainda não sabem como lidar com esse tipo de atitude: "O bullying na internet é um problema novo, e os educadores ainda não sabem como lidar com a questão. De acordo com a orientadora educacional e psicopedagoga Simone Venturini Pinto, quando a brincadeira passa do limite, é hora de intervir". Essas são questões que tendem a aumentar proporcionalmente à centralidade da 'voga de si', pois se fechar em si mesmo, excluindo os outros, é parte das estratégias para a construção das identidades. Além disso, uma intervenção apenas pontual, num momento ou outro de zombaria, não está articulado a um sujeito que se constrói em processo e, por isso, necessitaria de formação constante sobre as diferenças, a responsabilidade e o convívio com os outros, incluindo, aí, a desestabilização sobre as certezas e 'verdades' que tem construído sobre si mesmo, minando as relações egocêntricas, de hostilidade e arrogância que, muitas vezes, partem daqueles que julgam se sobressair aos demais.

Excerto de um trabalho maior.

Fernando Pessoa: poemas em site

Simplesmente maravilhoso o site de poesias de
F E R N A N D O P E S S O A. além de ser hiper completo, com verdadeiras preciosidades do poeta, ainda nos brinda com a possibilidade de ler os poemas tanto em português quanto em espanhol, reavivando ainda mais o furor latino. Isso no www.fpessoa.com.ar

EIS UM DOS PRESENTES QUE LÁ ENCONTREI:

Cada Coisa A Seu Tempo

Cada coisa a seu tempo tem seu tempo.
Não florescem no inverno os arvoredos,
Nem pela primavera
Têm branco frio os campos.

À noite, que entra, não pertence, Lídia,
O mesmo ardor que o dia nos pedia.
Com mais sossego amemos
A nossa incerta vida.

À lareira, cansados não da obra
Mas porque a hora é a hora dos cansaços,
Não puxemos a voz
Acima de um segredo,

E casuais, interrompidas, sejam
Nossas palavras de reminiscência
(Não para mais nos serve
A negra ida do Sol) ?

Pouco a pouco o passado recordemos
E as histórias contadas no passado
Agora duas vezes
Histórias, que nos falem

Das flores que na nossa infância ida
Com outra consciência nós colhíamos
E sob uma outra espécie
De olhar lançado ao mundo.

E assim, Lídia, à lareira, como estando,
Deuses lares, ali na eternidade,
Como quem compõe roupas
O outrora compúnhamos

Nesse desassossego que o descanso
Nos traz às vidas quando só pensamos
Naquilo que já fomos,
E há só noite lá fora.

E EM ESPANHOL:
Cada cosa a su tiempo tiene su tiempo.
No florecen en el invierno las arboledas,
Ni por la primavera
Tienen blanco frío los campos.

A la noche, que entra, no pertenece, Lidia,
El mismo ardor que el día nos pedía.
Con más sosiego amemos
Nuestra incierta vida.

A la hoguera, cansados no de la obra
Pero porque la hora es la hora de los cansancios,
No acerquemos la voz
Encima de un secreto,

Y casuales, interrumpidas, sean
Nuestras palabras de reminiscencia
(Para nada más nos sirve
La negra ida del Sol) ?

Poco a poco el pasado recordemos
Y las historias contadas en el pasado
Ahora dos veces
Historias, que nos hablen

De las flores que en nuestra infancia ida
Con otra consciencia recogíamos
Y bajo otra especie
De mirar lanzado al mundo.

Y así, Lidia, a la hoguera, como estando,
Dioses hogares, allí en la eternidad,
Como quien compone ropas
Otrora lo compongamos

En este desasosiego que el descanso
Nos trae a las vidas cuando sólo pensamos
En aquello que ya fuimos,
Y hay sólo noche allá fuera.

Odes De Ricardo Reis
Ricardo Reis

Link

No Tela Viva - http://www.telaviva.com.br/tvdigital.asp - vários links sobre a TV Digital.

PS.: Preciso arrumar a configuração do blogger, estou sem recursos para a escrita, linkar.