Victor respondeu o seguinte [na comunidade Pós-Moderno, do orkut]:
27/6/2005 14:48
e então, vamos por partes. em relação à sua pergunta: essa fragmentação é efeito de quê? a impressão que tenho é que lyotard busca responder essa pergunta em seu "a condição pós-moderna". de acordo com lyotard, a fragmentação é efeito, possivelmente, da deslegitimação do Discurso - quando ele discute com habermas a questão do consenso e chega à conclusão de que não há mais consenso. talvez seja possível pensar tal desconstrução do Discurso a partir de nietzsche e da morte de Deus? de qualquer forma, depois de nietzsche, a Verdade nunca mais foi a mesma - e essa possibilidade (a de não haver Verdade: de não haver Discurso), abriria espaço para o indivíduo se construir, se fazer, de maneiras diversas. daí a preocupação da filosofia contemporânea[?] em fugir da verdade, e não chegar até ela - uma preocupação poética, eu diria. acho sintomático quando baudrillard escreve um ensaio intitulado "esquecer foucault" dizendo, a grosso modo: foucault é bom demais p'ra ser verdade: é lógico demais p'ra ser verdade.e o que bauman propõe nesse ensaio é um pouco disso - li alguns ensaios daquele livro, depois cansei porque era muito sociológico e não me interessava no momento, mas lembro que ele dizia coisas que até então eu não tinha lido. a metáfora líquida pode ser esse não deixar-pegar de que falava. não lembro como ele trata a modernidade, mas lembro que ele faz alguns comentários polêmicos. tem umas distinções entre alta e baixa modernidade - no final das contas, acho que ele está falando em pós-modernidade mesmo. mas não posso falar muito desse livro. de qualquer forma, talvez seja uma leitura interessante pra v.acho interessante o que v. falou do orkut e quando falou das condições que possibilitam algo. de certa forma é o que foucault propõe em seus últimos trabalhos. a história da sexualidade não é uma história, como ele diz, sobre a sexualidade, propriamente, mas sobre a maneira pela qual o sujeito se constrói, as condições mesmo que estão presentes, e que o possibilitam a "ser" isso ou aquilo.
E ele continua:
27/6/2005 16:12
mas aí é que entra o que digo, e a importância do "homo ludens". quando v. pensa numa comunidade virtual, v. vai pensar uma relação que se configura a partir da ausência, a partir do desconhecimento (quase sempre), a partir do efêmero. e aí penso que seja interessante (talvez) pensar o caráter ficcional - talvez não seja "ficcional" a palavra. me refiro algo próximo do que baudrillard chama de simulacro. quero dizer: o sujeito que escreve numa comunidade do orkut não é o mesmo que se relaciona com a família, sei lá - se radicalizarmos, claro, o sujeito não é o mesmo em lugar nenhum: na escola é um, em casa é outro, no shopping é outro. mas de qualquer forma, penso que há algo num espaço ficcional que se distancia muito da vida real[?]. e esse algo talvez seja alguma coisa em torno da identidade. ou seja: a relação virtual é uma relação imersa - relação que, acredito, ainda não seja a não-virtual. por menos referências que temos, ainda temos um número civil, um endereço, e isso não pode ser simulado - é crime. quero dizer: talvez esse números, em si, não sejam importantes, mas a maneira como o sujeito age sabendo que carrega esses números talvez seja importante. na internete tudo isso pode ser simulado - acho muito engraçado, inclusive, um botão que tem no orkut chamado: usuário falso, denunciar (o que vai acontecer? processar o usuário falso? como vai ser provado que é falso?). quando v. diz, por exemplo, que existem comunidades dizendo: odeio gordas - seria interessante pesquisar para ver se existe odeio negros, ou odeio gays, porque nesse caso é crime. as pessoas que dizem coisas ali não diriam em espaços não-virtuais (tenho dificuldade para encontrar uma palavra que denomine o outro espaço: real? social?). eu não sei, viviane, são coisas que estou pensando aqui com v. e talvez sejam facilmente descontruídas. mas penso que seja interessante - necessário - não desconsiderar isso quando se fala em relações virtuais. em relação ao meu trabalho, deixe eu pensar um pouco mais. respondo outro dia. até porque estou cansado. um abraço grande.
Eu respondo o que segue a seguir:
E...
28/6/2005 16:58
Tb vejo que não o consenso não é possível, não é viável, e aí entra tb a questão do diálogo, que podemos ver não como uma solução possível, harmônica, mas como uma forma de inquietar-se consigo mesmo, de produzir-se de um modo diferente a partir da relação com o outro, ou com os outros. E se estabelecemos, cotidianamente, diálogos, vamos nos produzindo bem aos pedaços mesmo, como um mosaico em que a todo momento caem peças, e nunca conseguimos completá-lo com novas peças inteiramente, porque esse processo é veloz... isso é esse sujeito fragmentado, não inteiro, completo, nem sujeito de um único discurso. Bem, estou falando ao "léu", porque estou pensando nisso só agora, aqui... E vejo que logo acima falei em diálogos, mas nem sei mesmo se estabelecemos muitos diálogos hoje em dia, me parece que normalmente ficamos no nível da opinião, ou mesmo de afirmações, que já impossibilitam o diálogo, pois este último necessita da nossa abertura, enquanto sujeitos, para ouvirmos o que o outro nos diz. O diálogo necessita da ruminação, da mastigação demorada das palavras do outro, para que eu possa me tornar diferente com esse diálogo. E isso fico feliz que estejamos fazendo aqui, pois, de minha parte, as coisas que dizes me fazem pensar, refletir, e isso evidencia um diálogo. Bem, mas sei que há bastante discussões a respeito dessa temática, e um dia ainda conseguirei ler algumas...Talvez eu não tenha entendido muito bem o que tenhas colocado a respeito da desconstrução do discurso. Eu penso assim: quando se desconstrói alguma coisa, mostra-se como essa "coisa" foi inventada, construída. Então, desconstruir um discurso não é destruí-lo, mas mapear os processos de sua construção, que está datada e localizada nas condições da sua época. Eu, ao menos, creio que há verdades e discursos, diferenciados, conforme o lugar o qual somos falados e falamos. As verdades, então, como construídas, precisam passar por um processo de desconstrução, serem extraídos os seus fabricadores.
Continuo assim:
28/6/2005 17:02
Acho que o anúncio da morte de Deus, feito por Nietzsche, como relatas, declara a ruptura com o pensamento racional e Moderno que há muito nos assola e assolava. Isso porque a nossa ambição por uma "vontade de verdade", vontade de ter, descobrir e se apossar de um conhecimento verdadeiro, nos aprisiona, nos enjaula. Seríamos, assim, prisioneiros da metafísica e, portanto, da existência de um Deus ou algo "maior" que pairasse acima de nós. Com Nietzsche, então, aprendemos, que a verdade é desse mundo, construída pelos humanos e não algo do além, sempre existente... Aquele conceito nietzscheano de vontade de potência seria bem-vindo aqui, pena que eu não sei dizê-lo assim, de cabeça, mas talvez possa ser posto como uma vontade de poder que move os humanos e os fazem inventar verdades... sei lá. (ai, eu quero ler Nietzsche, mas como tentar "dar conta" de tudo?) Concordo contigo, se não paira mais nas nossas costas as sobredeterminações do divino, dos referenciais racionais, talvez aí possamos fazer da vida uma obra de arte, como assinala Foucault. É ir além do já banalizado, do dizer sim às coisas que até nós nos chegam, pois dizer não, ou mesmo talvez, nos possibilidade seguir outros caminhos. É também, algumas vezes, dizer sim, e aí deixar nos transformarmos em outros de nós mesmos. Em suma, ir além do instituído para nós. Creio que sintetizas bem o que estou querendo pesquisar, olha só: "de certa forma é o que foucault propõe em seus últimos trabalhos. a história da sexualidade não é uma história, como ele diz, sobre a sexualidade, propriamente, mas sobre a maneira pela qual o sujeito se constrói, as condições mesmo que estão presentes, e que o possibilitam a "ser" isso ou aquilo". E a minha pesquisa vai mesmo nos rastros do Foucault, ao menos tenta se aproximar... Acho que é bem isso, é um pouco tb do "como se chega a ser o que se é", de Nietzsche. Porque o que estamos sendo é possibilitado pelos significados culturais que estão nos constituindo, e tb dos modos com que reagimos a esses significados.
E ainda:
28/6/2005 17:04
Muito interessante as colocações que colocas a respeito da virtualidade. A minha orientadora fez a tese dela tratando sobre as identidades musicais juvenis nos chats da Internet, e ela fez uma discussão a respeito dos nicknames como marcadores identitários. Ela traz isso para mostrar o quanto na Internet os nicknames possibilitam a flutuação das identidades, uma vez que assim podemos nos tornar o que quisermos ser nesse momento. Não é raro, por exemplo, vermos pessoas em salas de bate-papo narrando a si mesmas através das características físicas socialmente mais valorizadas. Frente a pergunta: como vc é?, muitas vezes o que vemos é uma enumeração de características como: sou loira, alta, magra, olhos azuis ou verdes... Ao analisar o importante não é se aquilo é fictício ou não, mas mostrar que as identidades flutuam, e que podemos nos reinventar nesses espaços, coisa que não podemos fazer tão facilmente fora desses espaços, mesmo porque isso exigiria um enorme investimento financeiro, de tempo, etc. Esse espaço ficcional que dizes, vejo como a reinvenção de si mesmo, mesmo que reinvenção momentânea, efêmera, como colocas, reinvenção logo descartada, pois não se fica on line sempre... mas certamente há resquícios dessas identidades inventadas no plano "virtual" (tb não sei muito bem como nomear, isso é um problema...), assim como pode vir a ficar resquícios dos diálogos travados... Bah, eu não tinha pensado nesse botãozinho que há no Orkut, ele serve para a pessoa ir presa lá, parece. E isso é mesmo complicado, pois como falastes, como provar que tal pessoa é falsa, se ali é um espaço em que podemos ser quem quisermos (já vistes a quantidade de Luanas Piovanis que há, por exemplo? Aí tb a questão dos simulacros, pois não é o sujeito "em si" que está aí, mas a sua transformação em objeto, e por isso pode ser multiplicado...).
Mais isso:
28/6/2005 17:04
Há comunidades que pregam a homofobia, que dizem odiar travestis, gays... mas comunidades que dizem odiar negros eu praticamente não vi, não lembro bem, mas apenas uma com dois integrantes, acho. Bem, e essas discussões são importantes para a questão do pós-moderno porque vamos nos tornando sujeitos de determinados tempos. A questão de estarmos numa sociedade do espetáculo (tenho que ler o livro A sociedade do espetáculo, do Guy Debord, e tb alguns do Baudrillard, que tu falas, e que sei que devem ser bem interessante ? o que me indicas? - ! ), do prazer, do gozo, das visibilidades... nos fazem ser sujeitos de modos distintos, né? Um abração!
O Victor responde o seguinte:
respostinha
29/6/2005 07:32
"talvez seja possível pensar tal desconstrução do Discurso a partir de nietzsche e da morte de Deus?"essa é a minha pergunta ao qual se referes quando colocas a questão da descontrução, sim? tenho que concordar com v., viviane. "descontrução" foi uma palavra péssima. e talvez "Discurso" também. na verdade, acho que eu queria dizer: impossibilidade da verdade. ou seja: se não há mais Deus para legitimar algum tipo de discurso, não há mais Verdade. penso: se há várias verdades (com letra minúscula mesmo) é porque não há nenhuma Verdade. é mais ou menos isso que pensava.baudrillard. então, penso que baudrillard seja fundamental - embora muitas pessoas discordem de mim. ele tem alguns conceitos chave que passam por toda a sua obra. "simulacro", "fim do real", "a troca impossível", "tela total". o que ler? eu diria, lê tudo - eu diria, inclusive, para mim, que ainda não li tudo (bem, talvez nem a metade). como ler tudo é quase impossível, sugiro alguns: "à sombra das maiorias silenciosas: o fim do social e o surgimento das massas"; "a ilusão vital"; e a "transparência do mal". com esses três v. já se diverte um bocado.então, em relação às outras questões que colocas, tenho que pensar mais.
E, para finalizar, respondo:
29/6/2005 09:31
OI
Vou anotar estes títulos que vc me passou, do Baudrillard. Hoje, por um acaso, consegui emprestado o livro "Tela-total...", vou começar a ler em seguida, enquanto não consigo os outros... valeu!E acho que é isso mesmo, A verdade não é possível, porque se elas são construções, obedecem a arranjos específicos e podem ser contextualizadas, pois para duas pessoas as verdades são diferentes, porque creio que as pessoas precisam ter algumas... para as mover... mas o que muda é que vc não pode pensar que essa sua verdade seja única, porque há outras pessoas pensando diferentes, pessoas que estão âncoradas a outros arranjos e, portanto, outras verdades já construídas...
03 julho 2005
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário