02 julho 2005

Conversas no Orkut II. (dando continuidade)

Frente as questões levantadas pelo Victor, exposta no post anterior, eu respondi:

26/6/2005 12:18
Pois é, eu vejo que na área da educação (falo mais amplamente tb, porque vejo assim mesmo...) somos herdeiros de uma longa tradição de profissionais que acreditavam (e ainda acreditam!) que o papel da educação é conscientizar os alunos, conduzir à emancipação, etc. Se pensarmos bem, ainda hoje esse é um dos discursos mais "oficiais" sobre a educação, basta ver a grande discursividade criada em torno da idéia de que é através, e parece que só pela, da educação que teremos um Brasil melhor, mais justo e igualitário. A mídia, o governo federal, as pessoas de um modo geral acreditam nessa idéia. Não posso dizer que "educar" e "educar-se" não fará diferença para a vida das pessoas, pelo contrário, numa sociedade letrada ser alfabetizado e letrado dotará de significados distintos esses sujeitos, que poderão adquirir outras coisas, ter acesso a outros bens... O problema é que se põe a responsabilidade sobre a educação e, conseqüentemente, a escola. Esse "papel" que seria da educação ? e vende-se a idéia, muitas vezes, que só dela ? inviabiliza, talvez, pensarmos na responsabilidade de outras instituições para melhorar a vida das pessoas e a maneira delas verem a si mesmas e o mundo que as cerca. Essa é uma tradição muito antiga... e é por isso tb que arrecém essas discussões estão "chegando" na área da educação. Aqui na Faculdade de Educação da UFRGS, por exemplo, faz uns 9, 10 anos que há um grupo de professores estudando o pós-moderno e seus temas e autores afins. Isso é pouco, porque nós, alunos, entramos e vemos uma enorme salada mista (nada contra a multiplicidade de modos de olhar, mas só para constar); então para nós esse é um tema atual.
Mas tb acho que ficar falando de alta e baixa cultura, por exemplo, é enfadonho demais, porque muito já foi dito, e parece até tentativas desesperadas de "encher lingüiça" quando leio textos em que vejo esse e outros argumentos, que até viraram jargões, serem evocados. Pensar no pós-moderno como uma condição creio que é interessante para pensarmos nos sujeitos que estão sendo produzidos dentro desse panorama, uma condição que atravessa existências as constituindo... e aí a fragmentação desses sujeitos, como apontastes, pois subjetivação, modos de subjetivação, traz a imagem de processos, de fluxos, de intensidades que vem e fogem tb... daí que trabalhando com o conceito foucaultiano de sujeito é preciso tentar da conta (essa é uma expressão complicada) das multiplicidades de flechas subjetivantes direcionadas aos sujeitos nesses tempos de condição pós-moderna. E essa é uma "tarefa", em si, complexa, pois qualquer tentativa de apreender no tempo e nos espaço esses sujeitos que estão sendo escapa pelas nossas mãos, flui, desliza, foge... Acho que seria produtivo pensar, então: quais os efeitos dessa fragmentação dos sujeitos? Ou: essa fragmentação é efeito do quê? Como, em que circunstâncias, de que modos, podemos ver essa fragmentação? Ah, gostei de tudo que escreveste, especialmente: "talvez seja somente uma condição, e temos que lidar com ela", [sobre a fragmentação e tb o pós-moderno]. Pois o pós-moderno está aí, talvez tenha vencido a "batalha", tenha saído vencedor, e precisamos saber disso. Mas quanto a isso tb tenho muitas dúvidas.
Não sei se vc já leu (eu ainda não!), mas já me falaram num livro do Zygmunt Bauman, intitulado Modernidade Líquida, em que esse autor falaria (foi o q me disseram!) sobre como o moderno está aí, presente, nos dias de hoje... Eu ainda quero ler esse livro para pensar mais a respeito dessas questões... Puxa, que grande e boa coincidência termos temas afins de pesquisa! Essa questão da ficção é interessante. Vc conhece o conceito de ciborg da Donna Haraway (ñ tenho certeza se é assim que se escreve, li um texto que falava disso...)? Acho que vai nesta direção que colocas, talvez. Eu tb preciso pensar mais a respeito, para mim essas discussões são muito novas, e o meu objeto de estudo está tão grande, quero falar de tantas coisas... preciso me centrar mais tb, para dar conta de estudar com mais profundidade... Sobre o "Homo Ludens", obrigada pela dica, vou colocar na minha listinha, parece interessante! Sobre a minha pesquisa, o que estamos fazendo de nós mesmos? (questão formulada por Nietzsche e retomada por Foucault, se não me engano) e, conseqüentemente, o que estamos fazendo com os outros?, pode ser considerada uma das questões centrais da minha pesquisa. Isso porque me interesso em pensar o tempo presente (e aí o interesse no pós-moderno tb...). Ainda estou olhando materiais e pensando se trabalho em cima de comunidades do orkut e alguns "habitantes dessa parte do ciberespaço", ou se trabalho em cima de narrativas selecionadas em blogs ou se em cima de ambos. Quero pensar nas condições de possibilidades para que determinadas coisas sejam ditas e pensadas sobre si mesmo e sobre os demais.
Vc já deve ter visto as VÁRIAS comunidades do orkut que versam sobre o tema "eu odeio"... e aí entra o fato de odiar várias coisas, algumas banais e outras não. É o caso de uma comunidade intitulada Eu odeio gordas, entre muitas outras do gênero. Quero pensar nas discursividades de nosso tempo que criam condições de possibilidade para que esse tipo de sentimento sobre o "outro", e sobre si tb (porque "o outro é necessário para a nossa fabricação") seja construído... Preciso pensar mais na questão da Internet, da cibercultura... para pensar no porquê da escolha desse "local". Talvez seja porque vejo a Internet, e aí dentro orkut e blogs, como um expressivo espaço para que as pessoas (ia escrever sujeitos, mas deves ter visto que falo MUITAS VEZES essa palavra, já é um vício!!!) possam expressar as suas coisas numa cultura em que se incita cada vez mais as pessoas a falarem, mas que não problematiza o "pensar"... Sobre o título no gerúndio vou pensar, gerúndio é complicado!!!! ??????????-) Vou pensar sim, obrigada! O último Foucault vai ser importante pra mim, sim, mas estou mais é engatinhando a respeito... mas iniciar a caminhar (e deixar de engatinhar) vai ser um prazer (e demoradooooooooooo), porque são leituras muito gostosas de fazer. Pode ser "útil" para vc tb? E aí, e sobre o seu trabalho? Repasso a bola: "sobre o que v. anda pensando?"
Abs, muito bom conversar contigo!
*da próxima vez escrevo menos, é que fiquei empolgada, desculpe!

2 comentários:

Suzana Gutierrez disse...

Vivi
Tens de ler o David Harvey - Condição Pós-moderna.
É essencial para situar o próprio discurso pós-moderno :)
Outras refer~encias interessantes terias na Wood $ Eagleton (orgs) - Em defesa da história (acho que é isto).

Viviane disse...

Su
Vou anotar as sugestões. O livro do harvey está comigo, vou entrar nele nas próximas semanas...
Obrigada!