No texto Da ascese à bio-ascese ou do corpo submetido à submissão ao corpo, Francisco Ortega (2002) procura diferenciar as práticas de bio-ascese contemporâneas, entendidas como práticas de assujeitamento e disciplinamento, das práticas ascéticas da Antigüidade, como práticas de liberdade, e entendidas como "o conjunto mais ou menos coordenado de exercícios disponíveis, recomendados, e até mesmo obrigatórios, ou pelo menos utilizáveis pelos indivíduos em um sistema moral, filosófico e religioso, a fim de atingirem um objetivo espiritual definido". Entendendo, "por 'objetivo espiritual' uma certa mutação, uma certa transfiguração deles mesmos enquanto sujeitos, enquanto sujeitos de ação e enquanto sujeitos de conhecimentos verdadeiros" (FOUCAULT, 2004, p.505). Poderemos ver, aí, práticas que tem objetivos diferenciados e que, portanto, produzem modos de subjetivação diferenciados também.
Enquanto na ascese da Antigüidade as práticas de si tinham por função produzir singularidade, sujeitos resistentes às representações exteriores, constituindo-se como sujeitos éticos, podemos ver, no entanto, que as novas práticas de bio-ascese contemporâneas expressam o desejo de uniformização, adequação a esquemas e lógicas compostos, modos de existência em que aparece como prioridade a saúde e a perfeição corporal (ORTEGA, 2002). Como o mesmo autor afirma: "A idéia de uma ascese exclusivamente corporal, as bio-asceses contemporâneas, é completamente estranha para o pensamento antigo" (p.145).
As questões levantadas me leva a pensar sobre parte do corpus da minha pesquisa. Em comunidades do Orkut em que a temática central é "eu odeio" temos agregações como Eu odeio gordas, Eu odeio gordas que se acham, Eu odeio gordas mentirosas, entre outras. Vemos também, em outras seções, muitas outras comunidades em que as discussões giram em torno de si mesmo, como Eu me amo e sou correspondido, Além de tudo, sou bonito(a), Amo o corpo da Britney, Corpo perfeito, etc. associações que expressam, mais do que uma inquietação frente ao seu ser, uma preocupação com a aparência, com o corpo. Poderíamos, aqui, fazer uma contra-posição entre a dietética para os gregos - entendida como um "regime geral de existência do corpo e da alma", como "uma das formas capitais do cuidado de si" (FOUCAULT, 2004, p.74) - e os infinitos cuidados com o corpo de agora, em que trocamos, ao que parece, um cuidado de si como forma de relacionar-se e inquietar-se consigo mesmo para preocupações sobre ações individuais que giram em torno de como obter um corpo fisicamente melhor, como adiar a velhice e prolongar a juventude, etc. Como assinala Ortega: "Força, rigidez, juventude, longevidade, saúde, beleza são os novos critérios que avaliam o valor da pessoas e condicionam suas ações" (2002, p.157).
Nos atuais tempos, "já não é o corpo a base do cuidado de si; agora o eu só existe para cuidar do corpo, estando a seu serviço" (ibidem, p.167). As preocupações sobre o tornar-se outro de si mesmo, parecem gravitar, atualmente, em tornar-se outro na aparência, como já foi dito, já que pareço existir somente se admirada pelo olhar do outro - atitude que evidencia uma submissão ao corpo porque, ao que parece, dependemos dele para mostrar quem e como somos. Em meio ao culto ao corpo são adicionadas próteses de silicone aos peitos, são realizadas cirurgias nas barrigas, nádegas, panturrilhas, entre muitas outras coisas. Transformações que nos modificam na aparência, mas não do modo pelo qual estamos sendo sujeitos, no modo pelo qual estamos levando as nossas vidas...
REFERÊNCIAS
FOUCAULT, Michel. A hermenêutica do sujeito. Trad.Márcio Alves da Fonseca, Salma Tannus Muchail. São Paulo: Martins Fontes, 2004. 680p.
ORTEGA, Francisco. Da ascese à bio-ascese ou do corpo submetido à submissão ao corpo. In: RAGO, Margareth; ORLANDI, Luiz B. Lacerda; VEIGA-NETO, Alfredo (orgs.). Imagens de Foucault e Deleuze: ressonâncias nietzchianas. Rio de Janeiro: DP&A, 2002.
05 agosto 2005
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