MEU DEUS, como é difícil escrever. Sinto falta do tempo em que escrevia descompromissada, sem medo de desapontamentos, sem medo da página em branco que me olha indecorosa...
Na parte dedicada à prática da escrita, podemos ver técnicas utilizadas para os sujeitos poderem incorporar os discursos verdadeiros dos seus mestres. Nesse sentido, temos as hypomnémata, por exemplo, que consistia em anotações de lembranças, de leituras realizadas, assim como as próprias correspondências em que, dirigindo-se a um outro sujeito, dava-se notícias de si mesmo e ficava-se (atualmente também, pois essas práticas ainda persistem!) sabendo o que estava se passando com o outro. Movimento, portanto, de idas e vindas, buscando "a constituição para si de um equipamento de proposições verdadeiras, que seja efetivamente seu" (FOUCAULT, 2004, p.431).
Tendo trazido essas pequenas lembranças, posso dizer o quanto a leitura d?A hermenêutica do sujeito, especialmente a parte sobre a escrita de si, foi importante para que eu pudesse pensar no modo pelo qual eu estava incorporando esse discurso verdadeiro do Foucault. Dito isto, preciso dizer que não estou usando de ironia, de modo algum, mas querendo chamar a atenção do quanto certas técnicas de apreensão do discurso verdadeiro podem ser produtivas, já que seus efeitos podem ser sensivelmente vistos. Técnicas de apreensão do dito, da sua meditação, que engloba tanto a escrita quanto a leitura. Digo, retornando às linhas acima, em causa própria, pois desde as leituras que eu havia feito desse texto até a sua posterior releitura, pude ver a importância de escrever a si mesmo nas reflexões sobre o lido, como propiciadores de experimentarmos a nós mesmos no tempo do nosso pensamento. Textos que não são anotações, mas que são a articulação do que lemos, ouvimos, pensamos, com o que de experiência é produzida em nós. Como é sabido, não é sem suor, sacrifício, tensão, e até medo, que eu me disponho a escrever. Mas sinto que - após tantos bloqueios e folhas rasgadas, picotadas por não dizerem o que eu achava que deveria ser dito - valeu a pena insistir para poder dizer...
No que se refere à escrita que poderíamos chamar, por assim dizer, de acadêmica, creio que muitas coisas podem ser pensadas no momento em que estamos redigindo uma proposta de dissertação, como é o meu caso. Uma das questões é o quanto nos dispomos a entrar no(s) texto(s), a fazê-lo(s) verter aquilo que tanto nos desassossega, aquilo que tanto nos motiva e nos inquieta frente ao objeto de estudo que pode, talvez, ser a inquietação de nós mesmos no ato de nosso próprio pensamento. O quanto esse papel, tão particular da escrita (mas também da escuta, da fala), de possibilitar a nossa constituição através dela está sendo vivenciada na academia, na medida em que temos prazos, expectativas, angústias e, também, cobranças que já fazem as escritas serem esperadas de determinados modos, dentro de certas embalagens, como se fossem produtos a serem verificados segundo critérios pré-estabelecidos de qualidade e embalados para a venda. Algo assim, tão frio e maquínico.
Digo isso, ainda, para que escrevendo, eu possa pensar no modo como estou, cotidianamente, sendo pesquisadora. Para que, ao escrever, eu possa, cada vez mais, ser tocada pelas leituras, aulas, conversas, relações estabelecidas no ato das escritas... É como se isso precisasse ser dito para ser, ao mesmo tempo, buscado, perseguido por todos nós...
Referência
FOUCAULT, Michel. A hermenêutica do sujeito. Trad. Márcio Alves da Fonseca, Salma Tannus Muchail. São Paulo: Martins Fontes, 2004. 680p.
12 abril 2006
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3 comentários:
Olá viviane! Boa a citação de Foucault! Escrevo pra me manter lúcido. A Escrita é o elixir da posteridade. òtima semana pra vc. Bjs!
oi wallace
ótimo essa: escrevo para me manter lúcido", porq escrever ajuda a extravar de tudo...
abs
"escrever para não morrer", curiosamente torna-se o mesmo que eliminar a presença do autor na escrita. Curioso, não?
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