Lembro de uma conversa que tive com a mãe de uma menina de três anos, que estava indignada porque na escola infantil em que a menina estudava, colocaram aulas de artes e o inglês perdeu um pouco o seu espaço, já que ambas disciplinas ficaram com a mesma quantidade de períodos. Feita essa constatação, essa mãe confidenciou-me que estava prestes a trocar a filha de escola porque considerava que as artes não ajudariam a sua filha a conseguir emprego no futuro, e que o inglês seria mais útil nesse período e, por isso, achava um absurdo terem incluído as artes que, segundo ela, não serviria para nada. Ora, essas são questões gritantes, pois que tipo de sujeitos estamos querendo construir a partir da educação? Gerzson (2005), discutindo sobre a materialidade das práticas neoliberais nas reportagens sobre educação em revistas, assinala que:
O aprendizado desde o nascimento até o ingresso na vida profissional é abordado nas revistas [e em outras instâncias que ajudam a fabricar os nossos modos de pensar] que apontam como deve ser a educação, recomendam como escolher a melhor escola - e até a pré-escola - que já deve iniciar a familiarização com valores e preceitos da ordem neoliberal, para que o bebezinho já comece a incorporar certos saberes e comportamentos convenientes. (p.29)
Ora, parece-me evidente que a mãe a que me referi está associada a esse modo de pensar neoliberal, em que se busca construir indivíduos com ?identidades moldáveis e diversificadas, necessárias a um mercado de trabalho cambiante? (ibid.) para formar o sujeito-cidadão-consumidor do futuro. Um sujeito construído para gerar lucros e dividendos. Assim pergunto: que formação humana é essa?
Referência
GERZSON, V. R. Aprendendo a ter sucesso: a educação para o neoliberalismo nas revistas informativas semanais. Jornal "a Página", ano 14, nº 142, Fevereiro 2005, p. 29.
14 outubro 2005
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